O que é aprendizado em uma cultura participativa? (Parte 1) por Henry Jenkins

O que é aprendizado em uma cultura participativa? (Parte I) (original / tradutores)

 A conferência “Aprendizado em uma cultura participativa” foi organizada pelo Projeto New Media Literacies, do MIT, em parte para mostrar o trabalho que temos feito no último ano com  professores que testaram nosso material curricular e, em parte, para lançar publicamente nossa Learning Library (Biblioteca de Aprendizagem).

 A Biblioteca de Aprendizagem pretende ser um centro de atividades multimídia, onde as pessoas poderão aprender mais sobre novas literácias digitais, adquirir competências, testá-las através de desafios e, finalmente, produzir e compartilhar conteúdo com outros usuários.Da mesma forma que o Media Lab,  por meio do projetoScratch, permitiu que centenas de milhares de jovens ao redor do mundo aprendessem a programar via construção, compartilhamento e remixagem de projetos, esperamos que a Biblioteca de Aprendizagem forneça aos jovens e educadores uma oportunidade de remixar os produtos de sua cultura, a fim de aprender e se tornar participantes plenos deste panorama mediático contemporâneo.

 O projeto começou com capítulos curtos de documentários que produzimos sobre temas como cosplay, Wikipedia, grafite, cultura de DJ e animação, mas ficou cada vez mais claro que para colocar nossas teorias em prática precisaríamos criar um sistema mais robusto para a participação ativa no processo de aprendizagem.

 O resultado é atual biblioteca, onde os materiais que produzimos, além de inúmeros outros sites de produção e participação cultural que já estão na web, tornam-se recursos para os desafios que requerem uma mistura de exploração, experimentação, auto-reflexão e comunicação.  Agora estamos migrando para um trabalho com organizações já existentes – desde a Organization for Transformative Works, que produziu capítulos sobrevidding (produção de vídeos por fãs), até o Center for Social Media, que tem feito materiais sobre entrevistas e jornalismo-cidadão — para desenvolver conteúdos que possam formar a base para futuros desafios.http://transformativeworks.org – http://en.wikipedia.org/wiki/Vidding – http://www.centerforsocialmedia.org

 Estamos incentivando os professores a promoverem desafios como projetos de classe – assim como já tem acontecido em algumas de minhas aulas este ano. E esperamos ter conteúdo internacional que possa ser compartilhado com escolas de todo o mundo. Já trabalhamos para que alguns desafios não sejam simplesmente traduzidos para o espanhol, mas repensados para serem usados em um contexto latino-americano. Estamos descobrindo que os professores estão usando esses desafios de várias maneiras: alguns para si próprios, a fim de melhor entender os novos conceitos e práticas da literácia mediática, outros estão levando os desafios diretamente para as salas de aula, e muitos estão os adaptando a diferentes contextos curriculares, mantendo os princípios básicos, mas gerando seus próprios desafios. Em suma, apropriando-se e remixando-os para seus próprios fins.

 Os desafios são concebidos para serem modulares, capazes de se encaixar em sala de aula ou para serem utilizados para educação em casa e autodidata. Os desafios são desenhados para serem flexíveis, assim podem ser utilizados em uma variedade de disciplinas, com jovens em diferentes fases de desenvolvimento. Muitos deles são projetados para situações de baixa tecnologia, para salas onde não há um laptop por criança, pois enfatizamos as competências e os modelos mentais tanto quanto as ferramentas e técnicas de novas mídias. Eu compartilharei mais sobre a Biblioteca de Aprendizagem em breve e estou muito ansioso para ouvir a sua reação a este novo centro de recursos de mídia digital. Até agora, criamos mais de 30 desafios e temos produzido quase uma centena de vídeos que podem servir de base para os futuros desafios.

 Abaixo, compartilho o início de um ensaio sobre a biblioteca para a revista Threshold, do diretor de pesquisas Erin Reilly. Você pode recordar uma entrevista com Reilly feita neste blog no início do processo de desenvolvimento do projeto. Confira a edição online do especial.

 

O que é aprendizagem numa cultura participativa? Por Erin Reilly

 Educadores estão aprendendo a engajar as “crianças digitais” de hoje e ensiná-las a partilhar e distribuir conhecimento no seio das comunidades de aprendizagem. Hoje, temos inúmeras possibilidades para tomar as mídias em nossas próprias mãos e se conectar com os outros de maneiras significativas.

 Temos novas formas de trabalhar juntos para desenvolver conhecimentos e novas formas de utilizar as mídias para moldar o modo como nos apresentamos aos outros e aprendemos com eles.

 Para se conectar e colaborar uns com os outros, para produzir e divulgar informação nesta nova cultura participativa desenvolvemos ferramentas e canais, tais como o YouTube e o Facebook.

 No guia “Enfrentar os Desafios da Cultura Participativa: Educação de Mídia para o século 21”, a equipe do Projeto New Media Literacies do MIT abordou a necessidade de engajar os alunos na cultura participativa de hoje. Os jovens estão criando e difundindo ativamente conteúdos multimídia nas redes sociais que se estendem desde o círculo de amigos reais até os conhecidos virtuais. No entanto, a equipe acredita que os jovens também devem aprender a refletir sobre as suas criações de novas mídias, de forma a incentivar o importante aprendizado de habilidades de trabalho em equipe, liderança, resolução de problemas, colaboração, comunicação e criatividade.

 Nosso sistema de educação também está em meio a esta mudança de paradigma, em que os novos métodos, ambientes e modelos de avaliação devem ser compreendidos para acompanhar o ritmo de nossa cultura cada vez mais conectada.

 Conforme as discussões sobre pioneirismo e evolução digital abordam desde questões relacionadas ao acesso à tecnologia até aquelas relativas à participação, os educadores devem trabalhar para assegurar que cada jovem tenha acesso às ferramentas, habilidades e experiências necessárias para aderir a esta nova cultura participativa. Os educadores também têm a oportunidade de dar aos alunos as competências culturais e sociais de que eles precisam em seus futuros papeis como cidadãos e trabalhadores do século 21.

 Escolas formais têm sido lentas a reagir à emergência da cultura participativa, devido a uma interpretação exagerada dos perigos da mídia social e de uma falta de compreensão das promessas e possibilidades de uma sociedade em rede. Em seu lugar, programas de pós-escola e comunidades de aprendizagem informal tomam iniciativa, com programas e atividades que demonstram o potencial de aprendizagem através da cultura participativa acelerada pela mídia social. Para ajudar educadores e alunos a se tornarem mais proficientes nessa adaptação, identificamos 11 competências sociais que todos devem adquirir para sermos participantes ativos na nossa própria aprendizagem ao longo da vida.

 E desde então se expandiu o Projeto New Media Literacies para. As competências e aptidões sociais e culturais, a mudança no foco tradicional da alfabetização, a mudança do foco para a participação da comunidade fazem parte das novas literácias digitais. A nova alfabetização então pode ser entendida como novas formas de pensamento (inteligência coletiva) e modos de execução.

 

Aprender na Zoey’s Room

 O Digital Youth Project, um programa de bolsas da Fundação MacArthur’s Digital Media and Learning Initiative, recentemente concluiu um estudo de três anos de aprendizagem e inovação que acompanha o engajamento cotidiano dos jovens em relação aos novos meios de comunicação.

 O objetivo do estudo foi compreender as formas como os jovens utilizam as novas mídias, focando em como eles brincam, se comunicam e usam a criatividade, além de entender como estas interações afetam suas amizades, aspirações, interesses e paixões. No relatório final, a equipe do projeto, liderado pelo antropólogo Mimi Ito, explicou que as crianças utilizam as ferramentas digitais para “sair” com os amigos e “se divertir”, enquanto se aprofundam nos temas que amam, desde estrelas de rock à ciência.

 Além do que estão aprendendo na escola, eles se conectam socialmente e são influenciados pelo conhecimento uns dos outros. Esses mentores informais têm efetivamente tomado lugar entre as muitas fontes que influenciam as crianças no processo de conhecimento e formação da identidade.

 Eu comecei a compreender essa nova forma de aprendizagem em 2001, quando co-criei uma comunidade online para meninas de ensino médio chamada Zoey’s Room. Armados com o conhecimento de que 93 por cento dos pré-adolescentes e adolescentes usam a Internet e que as meninas são as maiores usuárias de redes sociais como MySpace e YouTube, lançamos a Zoey’s Room como um clube de tecnologia interativa para meninas em Maine.

 O projeto rapidamente expandiu-se em uma comunidade nacional experimental que, com criatividade, engaja as meninas em atividades de ciência, tecnologia, engenharia e matemática por meio do aprendizado peer-to-peer e auxiliado por funcionárias de empresas como a National Semiconductor e a Microsoft.

Hoje, a Zoey’s Room é uma rede social e uma mistura de ambiente de aprendizados no qual os jovens aprendem disciplinas por meio da interação online e offline, através de aplicações práticas da ciência e de desafios matemáticos pós-escolares executados por organizações como a YWCA.

 O ambiente colaborativo permite às garotas se sentirem seguras para explorar, falhar e tentar novamente, e confiar no grupo e em tutores que irão aplicar o material, apoiar a aprendizagem e construir relacionamentos durante o curso. A aprendizagem ocorre enquanto as meninas alternam entre a comunidade online e suas relações estendidas de amigas e mentores, que validarão os resultados de suas experiências.

 A mistura de aspectos sociais com um ambiente positivo de aprendizagem tem demonstrado que o acesso a uma cultura participativa funciona como uma nova forma de currículo. Em uma amostragem de 100 membros da Zoey’s Room em 2007, 46 por cento participaram através de um clube após a escola e 54 por cento participou em sua própria em casa — mostrando que a escola é apenas um dos nós nestes ecossistemas de aprendizado.

 Quando essas 100 meninas responderam questões específicas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática, a maioria acertou 12 das 13 questões, provando que elas realmente aprenderam os termos, conceitos e princípios ao fazer as diversas atividades do programa.

 Erin Reilly é uma especialista no design e desenvolvimento de conteúdos educacionais por meio da aprendizagem virtual e aplicações das novas mídias. Como diretora de pesquisa do Projeto New Media Literacies do MIT, Reilly ajuda a conceituar a visão do programa e a desenvolver uma estratégia de execução.

 Antes de entrar para o MIT, Reilly havia co-criado a Zoey’s Room, uma comunidade online para meninas de 10 a 14 anos que incentiva sua criatividade através da ciência, tecnologia, engenharia e matemática. Em 2007, Reilly recebeu um Prêmio de Líderes em Aprendizado da Cable, por sua abordagem inovadora, e foi selecionada pela National School Boards Association como uma das “20 educadoras a serem observadas”.

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